Quando se fala em porcos-espinhos, é comum que a memória remeta a imagens equivocadas: o pequeno ouriço-pigmeu africano, popularizado como animal de estimação, ou ainda os robustos roedores espinhosos da África, pertencentes à família Histricidae. Nenhum deles, entretanto, possui vínculo próximo com os nossos. O Brasil abriga representantes autênticos e singulares: os porcos-espinhos da família Erethizontidae, roedores arborícolas que expressam a engenhosidade da evolução e desempenham papéis cruciais na manutenção das florestas tropicais.

Nas últimas décadas, a pesquisa científica tem renovado o olhar sobre esses animais, ampliando o conhecimento acerca de sua diversidade, taxonomia e até mesmo de aspectos de sua saúde. Cada descoberta evidencia o quanto ainda há por compreender sobre esses discretos habitantes da fauna neotropical.
Os porcos-espinhos do Novo Mundo, conhecidos no Brasil como ouriços-cacheiros ou cuandus, distribuem-se do Canadá à Argentina. Nosso país, contudo, figura como um de seus principais centros de diversidade. Investigações recentes, aliando genética molecular e morfologia, revelaram que várias populações antes tratadas como uma única espécie pertencem, na verdade, a linhagens distintas. Essa reclassificação não é mero exercício taxonômico: identificar corretamente as espécies é condição essencial para o delineamento de estratégias de conservação eficazes. Atualmente, são reconhecidas 18 espécies viventes de porcos-espinhos (família Erethizontidae) distribuídas em três gêneros (Coendou, Erethizon e Chaetomys), sendo Chaetomys e Erethizon gêneros monoespecíficos.
O traço mais marcante dos Erethizontidae é o espinho, um pelo modificado ao longo da evolução. Oco, rígido e dotado de microfarpas, ele constitui um mecanismo defensivo de grande eficiência. Ao contrário de um mito persistente, esses animais não lançam seus espinhos; eles se desprendem apenas pelo contato, aderindo firmemente à pele do agressor.
Esse sistema de defesa, tão engenhoso quanto doloroso, explica os frequentes acidentes com cães domésticos em áreas rurais e periurbanas. Mais preocupante que os ferimentos, contudo, são as reações humanas que costumam suceder a tais encontros: animais mortos em represália, o que intensifica ainda mais a pressão sobre suas populações.
A taxonomia dos Erethizontidae encontra-se em permanente revisão. Pequenas variações anatômicas, quando analisadas à luz da genômica, têm sustentado a descrição de espécies antes ocultas sob denominações genéricas. Esses refinamentos classificatórios demonstram que a biodiversidade brasileira é ainda mais intrincada do que supunham os naturalistas do passado, exigindo novos olhares e métodos para ser devidamente compreendida.
É importante frisar: os porcos-espinhos brasileiros não têm parentesco próximo com outros animais espinhosos espalhados pelo mundo. Os ouriços-pigmeus e ouriços-cacheiros europeus (Atelerix e Erinaceus), por exemplo, pertencem à família Erinaceidae, de insetívoros, estando filogeneticamente muito distantes dos roedores. O mesmo vale para os porcos-espinhos africanos, da família Hystricidae.
A semelhança é apenas superficial, fruto de um fenômeno chamado evolução convergente: pressões ambientais semelhantes levaram diferentes linhagens, em tempos e lugares distintos, a desenvolver espinhos como estratégia de defesa. É uma semelhança de forma, não de origem.
Como tantos outros animais da fauna brasileira, os porcos-espinhos enfrentam as consequências da perda e fragmentação dos habitats, os atropelamentos em rodovias e os conflitos com animais domésticos. Mais recentemente, somou-se a esse quadro a ameaça de enfermidades: casos de poxvírus registrados em populações silvestres de Minas Gerais e, posteriormente, em outras regiões do país. Esse achado alerta para a vulnerabilidade dos Erethizontidae a agentes infecciosos e reforça a importância de abordagens integradas de vigilância em saúde, no espírito da One Health, que reconhece a interdependência entre saúde animal, humana e ambiental.
Apesar de discretos, os ouriços-cacheiros exercem funções ecológicas decisivas, como a dispersão de sementes, que favorece a regeneração natural das florestas. A presença desses roedores é indício de ambientes ainda equilibrados, e sua perda implicaria não apenas o empobrecimento da biodiversidade, mas a interrupção de processos ecológicos fundamentais.
Conhecê-los é reconhecer que a natureza brasileira abriga formas de vida singulares, muitas vezes invisíveis ao olhar apressado. Os porcos-espinhos nacionais, lembrados com frequência apenas pelos espinhos incômodos, são, na verdade, herdeiros de milhões de anos de evolução. Conservá-los é garantir a continuidade dos ecossistemas que sustentam a vida.
Sobre o autor:

Prof. Délcio Magalhães é médico-veterinário, professor e autor do blog Pegada Científica, da SimbaVet. Atua nas áreas de clínica e conservação de animais silvestres, com experiência acadêmica e prática de campo.
Apaixonado por educação e pelo universo selvagem, escreve quinzenalme